DETECTANDO A DESINFORMAÇÃO, SEM RADAR

Publicado: outubro 14, 2012 em Teorias da Conspiração
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( artigo publicado no extinto site rizoma.net )

Gregory Sinaisky

Como distinguir uma reportagem autêntica de um artigo fabricado para

produzir o efeito de propaganda desejado? A guerra no Iraque nos

fornece muitas amostras para um estudo das técnicas da desinformação.

Observe o título: “Xiitas de Basra organizam revolta e atacam tropas do

Governo”, publicado em 26 de março no The Wall Street Journal Europe .

Utilizando-o como exemplo, tentaremos armar os nossos leitores com

princípios básicos das técnicas de análise da desinformação, com a

esperança de que no futuro isso lhes permita detectar o que é fraude.

O título do artigo soa bastante definitivo. O artigo, contudo, começa com

muito menos certeza. “Oficiais militares dizem que a população xiita de

Basra … deu a impressão de estar se rebelando”. As sentenças “oficiais

militares” e “deu a impressão de estar” deveriam imediatamente fazer

com que surja um alerta para o leitor, especialmente devido a sua má

combinação com o título que é tão definitivo. Por que “oficiais”? Eles

falavam em coro? Ou cada um deles estava apenas proporcionando uma

informação complementar? Uma reportagem verdadeira certamente nos

responderia estas perguntas e também nos informaria os nomes dos

oficiais ou no mínimo diria a razão porque não podem ser identificados.

Por que foi utilizada a frase “deu a impressão”? Existem sempre razões

específicas para que algo “dê a impressão”. Por exemplo, a notícia sobre a

revolta da população xiita de Basra pode ser incerta porque foi fornecida

por um desertor iraquiano que não é considerado confiável e não foi

confirmada por outras fontes. Mais uma vez, todo repórter profissional

entende que seu trabalho é proporcionar tais pormenores e são

exatamente estes pormenores que tornam sua reportagem valiosa,

interessante e memorável. Se todos estes importantes pormenores não

estiverem presentes, isto é com certeza um sinal para suspeitar de

desinformação intencional.

Mais abaixo neste artigo notamos exemplos ainda mais espantosos de

imprecisões. “Repórteres no local disseram que as tropas iraquianas

atiravam nos cidadãos que protestavam…”. Para um leitor perspicaz, esta

pequena sentença deveria levá-lo a todo um conjunto de questões.

Estariam os jornalistas mencionados incorporados nas tropas? Qual era a

sua localização e a que distância observavam os acontecimentos?

Obviamente, estar numa cidade sitiada e onde ocorrem tumultos é um

trabalho extremamente perigoso. Por que nos foram ocultados os nomes

dos repórteres autores deste brilhante feito, ao invés de proclamá-los

com orgulho? Por que não quiseram contar de onde observavam e como

conseguiram chegar lá? De qualquer maneira, em tais circunstâncias,

estar mais próximo da cena do que a distância de um tiro de rifle,

digamos um quilômetro, merece uma explicação especial. Agora, uma

questão interessante: quais são os indícios visuais que permitem a um

repórter, a esta distância, distinguir entre uma revolta e, digamos, tropas

que disparavam sobre saqueadores ou outras muitas explicações

possíveis para os mesmos fatos observados?

A única pista que posso imaginar não é visual, mas uma indicação oral de

um editor pedindo a um jornalista que relate — o que não podemos

explicar de nenhuma outra forma senão como uma tentativa de

desinformação intencional. Dada a natureza muito específica da

desinformação produzida neste caso particular, seu óbvio efeito tanto

sobre a resistência iraquiana como sobre a opinião pública anti- guerra,

não podemos encontrar nenhuma outra explicação para este fato —

exceto que The Wall Street Journal colabora diretamente com o

departamento de guerra psicológica do Pentágono.

Alguma luz inesperada é lançada a esta estória através da expressão: “UK:

Iraque sente forte reação em Basra”, publicada na CNN.com, também em

26 de março. Neste artigo, a reportagem original sobre uma revolta de

civis é atribuída a “autoridades militares britânicas e a jornalistas”, mais

uma vez não identificados. Aqui, o coro dos “oficiais” que cantam em

uníssono com os “jornalistas” faz com que alguma coisa se torne mais

específica. Uma declaração extremamente bizarra é relatada: “Temos

radares que, ao acompanharem a trajetória dos tiros de morteiro, são

capazes de descobrir a fonte e o alvo de destino, que neste caso eram

civis de Basra”. Portanto, agora sabemos que a revolta em Basra fora

detectada por oficiais britânicos e jornalistas que observavam uma tela de

radar! Este inacreditável radar britânico pode até mesmo distinguir um

oficial do Iraque de um simples cidadão e um civil de um soldado. Além

disso, aparentemente pode ler mentes e determinar as razões porque as

pessoas disparam umas sobre as outras!

Na verdade, há uma grande mentira na informação atribuída aos oficiais

britânicos. Ou talvez eu esteja errado e este seja um exemplo do famoso

senso de humor britânico posicionado para livrar-se dos impertinentes

correspondentes americanos? Coro dos correspondentes americanos:

Está acontecendo uma revolta em Basra? Sim, deve estar. O meu editor

pediu-me que noticiasse isso. Como vocês ficaram sabendo? Isto é

impossível, meu editor me disse que…” Oficial britânico: “Tudo bem. Eu

vejo isso no radar”. Sons de telefones celulares sendo discados e teclados

digitados…

Conclusão: Lembrem a primeira regra de análise da desinformação: a

verdade é específica e a mentira é vaga. Procure sempre por detalhes

concretos em uma reportagem e se o quadro não estiver focado, deve

haver razões para isso.

Querem saber os nomes das estrelas da desinformação para examiná-los?

O artigo de The Wall Street Journal foi “compilado” por Matt Murray em

Nova Iorque, a partir de reportagens feitas por Christopher Cooper em

Daha, no Qatar, Carla Anne Robbins e Greg Jaffe em Washington, e

Helene Cooper com a 3ª Divisão de Infantaria do Exército dos Estados

Unidos, no Iraque.

 

Tradução de Cristiane Abreu

 

O original deste artigo está publicado no Asian Times.

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