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Budismo e a lógicaO propósito deste ensaio é traçar uma comparação exata entre as concepções da ciência moderna sobre o Fenômeno e suas explicações, onde elas existam, e as antigas idéias dos Budistas; mostrar que o Budismo, tanto em teoria quanto na prática, é uma religião científica e uma superestrutura lógica, com base na verdade experimentalmente verificável; e que o seu método é idêntico ao da ciência. Nós devemos certamente excluir as características acidentais de ambos, especialmente as do Budismo; e, infelizmente, em ambos os casos, nós temos que lidar com desonestas e vergonhosas tentativas de se impingir a ambos opiniões das quais nenhum deseja ser fiador. Professor Huxley lidou com uma destas tentativas em seu “Pseudo-Científico Realismo”; Professor Rhys Davids demoliu outra neste certeiro comentário sobre o “Budismo Esotérico”, afirmando que ele ““não era Esotérico e certamente não era Budismo”. Mas ainda há alguma lama Teosófica que se gruda na carruagem do Budismo; e ainda existem pessoas que acreditam que a ciência sã tem ao menos uma saudação amigável para o Ateísmo e o Materialismo, em suas formas mais grosseiras e militantes.

Que seja entendido, portanto, desde o início, que se eu incluo na Ciência a metafísica, e no Budismo práticas de meditação, eu não me inclino nem para os reducionistas ou “reconciliadores”, por um lado, e nem para os prestidigitadores Animistas, pelo outro. À parte do entulho Teosófico, encontramos Sir Edwin Arnold escrevendo:

“Quaisquer que digam que Nirvana é cessar, Diga a tais que mentem.”

Mentir é uma palavra muito forte, e deveria ser lida como “traduzir incorretamente”.

Eu suponho que assim o poema não fosse metrificar, nem rimar: mas Sir Edwin é a última pessoa que se deteria por uma coisa pequena como esta.

Dr. Paul Carus também, no “Evangelho de Buda”, se satisfaz em apresentar o Nirvana como um paralelo ao Céu dos Cristãos. Será suficiente se eu reiterar a unanime opinião dos estudiosos competentes, de que não há um fragmento de evidência suficiente em qualquer livro canônico para se estabelecer tais interpretações no cerne da tradição e da prática Budistas; e que qualquer pessoa que persista em tocar o Budismo em sua própria harpa Judia desta forma, está arriscando a sua reputação, tanto intelectual quanto de boa fé. Homens científicos são bastante comuns no Ocidente, se os Budistas não o são; e eu posso seguramente deixar em suas mãos a tarefa de castigar os gatunos da área científica.

As características essênciais do Budismo foram resumidas pelo próprio Buda. Para mim, é claro, o que o Buda realmente disse ou não não importa; algo é verdadeiro ou não, não importa quem o tenha dito. Nós acreditamos no Sr. Savage Landor quando ele afirma que Lhasa é uma cidade importante do Tibete. Aonde apenas probabilidades são referidas nós somos sem dúvida influenciados pelo caráter moral e pelas capacidades mentais do informante; mas aqui eu não estou lidando com nada incerto.

Existe um teste excelente para o valor de qualquer passagem em um livro Budista. Nós estamos, é claro, justificados ao descartar estórias que são claramente ficções Orientais, assim como o criticismo moderno, embora secretamente Teísta, descarta a Estória de Hasisadra ou de Noé. Em justiça ao Budismo, não vamos sobrecarregar as suas escrituras com a tarefa Sisífeana de defender seriamente a interpretação literal de suas passagens obviamente fantásticas. Que os nosso zelotes Budistas sejam alertados pelo destino da ortodoxia Inglesa fora de moda! Mas quando o Budismo condescende em ser científico; em observar, classificar, pensar; eu considero que devemos levar o assunto com seriedade, e conceder uma investigação razoável a suas afirmações. Exemplos desta concisão e claridade podem ser encontrados nas Quatro Nobres Verdades; nas Três Características; nos Dez Grilhões; e existe claramente uma teoria sobre a idéia do Karma. Tais idéias são básicas, e são como uma linha na qual as contas do rosário das Mil e Uma Noite Árabes são colocadas.

Eu proponho portanto lidar com estes e alguns outros pontos menores da metafísica Budista, e traçar suas analogias com a Ciência, ou, como ainda mais espero demonstrar, suas não raras identidades.

Primeiramente vamos examinar o grande Sumário da Fé Budista, as Quatro Nobres Verdades.

As Quatro Grandes Verdades

1. Sofrimento: Existência é sofrimento. Isto significa que “nenhuma forma de Existência é separável do Sofrimento”. Esta verdade é atestada por Huxley, quase que com as mesmas palavras, em Evolução e Ética. “Não era menos claro para alguns destes filósofos antigos do que para os pais da filosofia moderna, que o sofrimento é a insígnia de toda a tribo dos seres sensíveis; ele não é um acompanhamento acidental, mas um constituinte essencial do Processo Cósmico.” E, no mesmo ensaio, embora ele esteja disposto a negar qualquer coisa além de rudimentos de consciência às formas inferiores de vida, ele é bastante claro no fato de que a dor varia diretamente (colocando de forma superficial) com o grau de consciência. Cf. também “Automatismo Animal”, pg.236-237.

2. A Causa do Sofrimento: A causa do sofrimento é o desejo. Eu considero aqui desejo como incluindo fenômenos tais como a tendência de duas moléculas de hidrogênio e cloro se combinarem sob certas circunstâncias. Se a morte é dolorosa para mim, ela o é presumivelmente para uma molécula; se nós representamos uma operação como agradável, a oposta presumivelmente é dolorosa. Embora eu não esteja consciente da dor individual das incontáveis mortes envolvidas em meu ato de escrever, elas podem estar lá. E o quê eu chamo de “fadiga” pode ser o eco na minha consciência central do grito de uma angústia periférica. Aqui nós deixamos o domínio do fato; mas ao menos até onde o nosso conhecimento vai, todas ou quase todas as operações da Natureza são vaidade e vexação de espírito. Considere a comida, cujo desejo surge periodicamente em todos os seres conscientes.

A existência desses desejos, ou melhor, necessidades, as quais eu percebo serem minhas, é desagradável. É o desejo, inerente a mim, por um estado de consciência contínuo, que é o responsável por isto tudo; e isto nos leva à Terceira Nobre Verdade.

3. O Cessar do Sofrimento: A cessação do desejo é a cessação do sofrimento. Esta é uma simples inferência lógica da segunda verdade, e não precisa de comentário.

4. A Nobre Senda Óctupla: Há um caminho, a ser considerado adiante, para se realizar a Terceira Verdade. Mas nós devemos, antes de percebermos a sua possibilidade, por um lado, ou a sua necessidade, por outro, formar uma clara idéia sobre quais são os princípios Budistas sobre o Cosmos; e, em particular, sobre o homem.

O Nobre Caminho Óctuplo

O Nobre Caminho Óctuplo oferece simplesmente um guia prático para o desenvolvimento das habilidades que devem ser cultivadas se o praticante desejar alcançar o objetivo final de extinguir os desejos que levam ao sofrimento:

  1. Ponto de Vista Correto
  2. Pensamento Correto
  3. Fala Correta
  4. Ação Correta
  5. Meio de Vida Correto
  6. Esforço Correto
  7. Atenção Correta
  8. Concentração Correta

 
O nobre caminho óctuplo pode ser didaticamente dividido em três grupos:

Prajna, sabedoria

1. Ponto de Vista Correto – Conhecer e compreender as Quatro Verdades Nobres acima citadas.
2. Pensamento Correto – querer renunciar os pensamentos que levem ao desejo ou nasçam dele.

Shila, ética

3. Fala Correta – Surge do pensamento correto. Não mentir, não usar linguagem pesada, não falar mal dos outros, não falar frivolamente mas sim de maneira honesta, reconfortante e significativa.
4. Ação Correta – Surge também do pensamento correto. É a prática de ações éticas e a renuncia as ações anti-éticas. Não matar, não roubar, não se viciar, não cometer adultério mas sim proteger e cuidar de todos os seres.
5. Meio de Vida Correto. Surge da fala e ação correta. Seus hábitos e modo de sustento e trabalho também devem ser éticos.

Samadhi, comtemplação

6. Esforço Correto – Dedicar-se constante e assíduamente ao nobre caminho óctuplo produzindo e aumentando o que é bom e prevenindo e eliminando o que é mal de sua vida
7. Atenção Correta – É a contemplação do corpo, sentimentos, mente e fenômenos tais como realmente são sem apego paixões, desejos e ilusões.
8. Concentração Correta – Refere-se aos Dhyanas ou prática meditativa, por meio do qual os outros pontos se fortalecem.
 

As Três Características

As três características (as quais nós podemos predicar de todas as coisas existentes conhecidas):

  • Mudança. Anikka.
  • Sofrimento. Dukkha.
  • Ausência de Ego. Anatta.

Esta é a Afirmação Budista. O que diz a Ciência?

Huxley, “Evolução e Ética”: “Assim como nenhum homem vadeando um córrego ligeiro pode mergulhar seu pé duas vezes na mesma água, nenhum homem pode, com exatidão, afirmar de qualquer coisa no mundo sensível que ela é. Assim que ele pronuncia as palavras, não, assim que ele as pensa, o predicado deixa de ser aplicável. O presente se tornou o passado; o “é” deveria ser “era”. E quanto mais aprendemos sobre a natureza das coisas mais evidente fica o fato de que o que chamamos de repouso é apenas atividade imperceptível; que a paz aparente é silenciosa mas tenaz batalha. Em toda parte, a todo momento, o estado do cosmos é a expressão de um transitório ajustamento de forças em luta, uma cena de conflito, na qual todos os combatentes caem na sua vez. O que é verdade para cada parte é verdade para o todo. O conhecimento Natural tende mais e mais para conclusão de que “todo o coro dos céus e todas as coisas da terra” são formas transitórias de parcelas da substancia cósmica movendo-se pela estrada da evolução, partindo da nebulosa potencialidade, através de infindáveis desenvolvimentos de sol e planeta e satélite, através de todas as variedades da matéria; através de infinitas diversidades de vida e pensamento, possivelmente através de modos de ser dos quais nós não temos nenhuma idéia, e sequer somos competentes para imaginar, e voltando à indefinida latência da qual surgira. Portanto o mais óbvio atributo do cosmos é a impermanência. Ele assume o aspecto não tanto de uma entidade permanente quanto o de um processo modificante, no qual nada permanece a não ser o fluxo de energia e a ordem racional que o pervade.”

Este é um admirável sumário da doutrina Budista.

Veja acima sobre a Primeira Nobre Verdade.

Esta é a grandiosa posição que Buda defendeu contra os filósofos Hindus. Em nosso próprio país é o argumento de Hume, seguindo Berkeley a um ponto que Berkeley certamente não pensou em ir — um curioso paralelo da maldição de Cristo sobre Pedro (João, xxi). O Bispo demole a idéia do substratum da matéria, e Hume segue aplicando processo idêntico de raciocínio ao fenômeno da mente.
Vamos considerar a teoria Hindu. Eles classificam o fenômeno (aqui bom e ruim não importam), mas o representam como presente em, mas sem a afetar, uma certa existência imutável, onisciente, bem-aventurada chamada Atman. Mantendo o Teísmo, a existência das forças malignas os forçam a uma posição Fichteana na qual “o Ego põe o Não-Ego”, e nós aprendemos que afinal nada realmente existe além de Brahma. Eles então distinguem entre Jivatma, a alma condicionada; e Paramatma, a alma livre; a primeira sendo a base da consciência normal; a segunda da consciência Nirvikalpa-Samadhi; esta sendo a única condição pela qual a moral, a religião, e as oferendas aos sacerdotes podem continuar. Pois o Teísta tem apenas que avançar a sua idéia fundamental para ser forçado a um círculo vicioso de absurdos.

O Budista faz uma clara varredura de todo este tipo de bobagem. Ele analisa o fenômeno da mente, adotando o paradoxo de Berkeley de que “a matéria é imaterial”, de uma maneira sã e ordenada. O “Filósofo do senso comum”, a quem eu deixo a ruminar as amargas folhas do ensaio do Professor Huxley “Sobre a sensação e a unidade da Estrutura dos Órgãos Sensíveis”, observa , ao levantar o seu braço, “Eu ergo o meu braço”. O Budista examina a proposição rigorosamente, e começa:

“Há o levantar de um braço.”

Por esta terminologia ele evita as discussões Teutônicas relativas ao Ego e o Não-Ego. Mas como ele sabe que a proposição é verdadeira? Através da sensação. O fato, portanto, é:

“Existe a sensação de se levantar um braço.”

Mas como ele sabe disto? Através da percepção. Portanto ele diz:

“Existe a percepção de uma sensação, etc..”

E como [ele tem] esta percepção? Através da tendência inerente.

(Note-se cuidadosamente o ponto de vista determinista envolvido na enunciação desta Quarta Skandha; e que ela vem abaixo de Vinnanam.)

“Existe uma tendência a perceber a sensação, etc..”

E como ele sabe que existe uma tendência? Através da consciência. A análise final diz:

“Existe uma consciência da tendência de se perceber a sensação do levantar de um braço.”

Ele não vai, por não ser possível, além disto. Ele não irá supor, sem nenhum tipo de evidência, o substratum do Atman unindo consciência à consciência através da sua eternidade, ao mesmo tempo em que estabelece um grande espaço entre elas através de sua imutabilidade. Ele atesta o conhecível, atesta-o acuradamente, e o abandona. Mas existe uma aplicação prática desta análise da qual eu vou tratar mais adiante (veja “VIII. Mahasatipatthana”).

Nos é ensinado que a memória é uma prova de algum “Eu” real. Mas como é traiçoeira esta área! Um evento passado da minha vida não ocorreu porque eu o esqueci? A analogia da água do rio dada acima é extremamente válida! Eu que escrevo isto não sou o eu que o relê e corrige. Será que desejo brincar com soldadinhos de chumbo? Sou eu o aborrecido velho inválido que precisa ser paparicado e alimentado com uísque, pão e leite? E a minha diferença em relação a estes é tão menos notável do que a ao corpo morto, do qual os que o virem dirão: “Este foi Aleister Crowley”?

Que idiotice é supor que uma substância eterna, sensível ou não, onisciente ou não, dependa para a sua informação de uma série tão absurda de corpos quanto os agrupados sob este “Crowley”!

Entretanto, o Budista encara todos os argumentos de ordem espiritual com uma simples afirmação a qual, se não é certa, ao menos não é improvável. Existe, ele dirá a você, um mundo “espiritual”, ou, para evitar qualquer (bastante injustificado) mal-entendido, digamos um mundo de matéria mais sutil do que o visível e tangível, que tem as suas próprias leis (análogas, se não idênticas, às leis da matéria as quais estamos acostumados) e cujos habitantes mudam, e morrem, e renascem tanto quanto os seres mortais comuns. Mas, como eles são de matéria sutil, seu ciclo é menos rápido.

Como um nominalista, eu espero não ser mal interpretado quando eu comparo isto a relativa mutabilidade do indivíduo e das espécies. Nós temos bastantes exemplos livres desta possibilidade de má interpretação em nossos próprios corpos. Compare a logevidade do osso com a de um corpúsculo. Mas é este “Substratum” universal, o qual não deve ser confundido com o substratum, cujo argumento para a sua existência Berkeley tão completamente destruiu, que poderia conservar a memória por um período muito maior do que o de um de seus avatares particulares. Por isso o “Jataka”. Mas a doutrina não é muito essencial; seu principal valor é mostrar que sérias dificuldades nos confrontam, e fornecer uma razão para o esforço por um estado melhor. Pois se nada sobrevive à morte, o que isto tudo significa para nós? Por que deveríamos ser tão altruístas a ponto de evitar a reencarnação de um ser em todos os pontos diferente de nós? Como disse o menininho, “O que a posterioridade fez por mim?”. Mas algo persiste; algo mudando, embora mais lentamente. Qual a evidência que nós temos, afinal, de que um animal não recorda a sua encarnação humana? Ou, como Levi diz, “Nos sóis eles recordam, nos planetas eles esquecem”. Eu penso (talvez) de maneira diferente, mas, na total ausência de evidência a favor ou contra — ao menos em relação a última hipótese! — eu suspendo o meu julgamento, deixo a questão entregue a si mesma, e avanço para pontos mais práticos do que os que nos são oferecidos por estas interessantes, mas pouco úteis, especulações metafísicas.

Karma

A lei da causação é formalmente idêntica a esta. Karma significa “aquilo que é feito”, e eu creio que devia ser considerado com estrita acuidade etimológica. Se eu coloco uma pedra no telhado de uma casa, é certo que ela irá cair mais cedo ou mais tarde; ou seja, assim que as condições o permitirem. Também, em sua fundação, a doutrina do Karma é idêntica ao determinismo. Sobre este assunto muita sabedoria, com um infinito amontoado de bobagem, foi escrita. Eu, portanto, o encerro nestas pouca palavras, confiante de que a identidade estabelecida não possa nunca ser abalada.

Os Des Grilhões ou Sanyoganas

 

  1. Sakkaya-ditthi. Crença em uma “alma”.
  2. Vikikikkha. Dúvida.
  3. Silabbata-parâmâsa. Confiança na eficácia dos ritos e cerimônias.
  4. Kama. Desejos corporais.
  5. Patigha. Ódio.
  6. Ruparanga. Desejo pela imortalidade corporal.
  7. Aruparaga. Desejo pela imortalidade espiritual.
  8. Mano. Orgulho.
  9. Udhakka. Auto-justificação.
  10. Avigga. Ignorância.

(1) Pois isto é uma petitio principii.

(2) Isto, para o cientista, é aparentemente um anátema. Mas apenas significa, eu penso, que se nós não estamos assentados em nossas mentes, não podemos trabalhar. E isto é inquestionável. Imagine um químico que começa a trabalhar para determinar o ponto de ebulição de uma nova substância orgânica. Ele para no meio da experiência, paralisado pelo receio de que o seu termômetro seja impreciso? Não! Ele, previamente, a não ser que seja um idiota, já o testou. Nós temos que ter nossos princípios fixados antes de poder executar o trabalho de pesquisa.

(3) Um cientista dificilmente requer convicção neste ponto!

(4) Você pensa em combinar Newton com Calígula? As paixões, quando livres para dominar, interferem com a concentração da mente.

(5) Ficar pensando em seus desafetos contribui para uma observação acurada? Eu admito que a controvérsia pode movê-lo a realizar prodígios em seu trabalho, mas enquanto você está realmente trabalhando você não permite que se interfira com a concentração da sua mente.

(6 & 7) Este grilhão e o próximo são contigentes a se perceber o sofrimento de todas as formas de existência consciente.

(8) Não precisa de comentário. Orgulho, assim como humildade, é uma forma de ilusão.

(9) Da mesma forma, só que no campo moral.

(10) O grande inimigo. Apenas os Teístas tiveram a infame audácia de exaltar os méritos desta insígnia da servidão.

Nós vemos, portanto, que o cientista irá concordar com esta classificação. Não precisamos discutir a questão de se ele acharia outras para adicionar. O Budismo pode não ser completo, mas, até onde ele vai, é acurado.

A Relativa Realidade de Certos estados de Consciência

Se nós adotamos o dictum de Herbert Spencer de que o testemunho primário da consciência é para existência da exterioridade, ou não; se nós voamos ou não para e posição idealista extrema; não existem dúvidas de que, para o nosso estado normal de consciência, as coisas como elas se apresentam — excluindo-se a ilusão óbvia, se mesmo nós ousamos excepcioná-la — são inegáveis para a apreensão imediata. Qualquer coisa que diga a este respeito a nossa razão, nós agimos precisamente como se Berkeley nunca tivesse existido, e o hérculeo Kant tivesse sido estrangulado ainda no berço pelas serpentes gêmeas de sua própria perversidade e terminologia.

Quais os critérios que devemos aplicar para as realidades relativas da consciência normal e onírica? Por que eu tão confiantemente afirmo que o estado onírico é transitório e irreal?

Neste estado eu estou igualmente certo de que meu estado de consciência normal é inválido. Mas como os meus sonhos ocupam uma porção relativamente pequena do meu tempo, e como a lei da causação parece suspensa, e como a sua vividez é menor do que a da consciência normal, e, acima de tudo, como na grande maioria dos casos eu posso mostrar uma causa, originária das minhas horas acordado, para o sonho, eu tenho quatro fortes razões (a primeira explanatória em parte para a minha aceitação das demais) para concluir que o sonho é fictício.

Mas e quanto ao estado “sem sonhos”? Para o sonhador suas faculdades normais e a memória surgem em alguns momentos, e são consideradas como fragmentárias e absurdas, assim como as lembranças de um sonho para o homem desperto. Não podemos conceber uma vida “sem sonhos”, da qual nosso sonhos são a vaga e perturbada transição para a consciência normal? A evidência fisiológica não nos serve literalmente para nada neste caso. Mesmo se fosse provado que o aparato recipio-motor do sonhador “sem sonhos” é relativamente tranqüilo, isto traria algum argumento válido contra a teoria que sugeri? Sugeri, pois admito que a nossa presente posição é completamente agnóstica a esse respeito, uma vez que não temos nenhuma evidência que traga luz sobre o assunto; e o estudo do tema parece mero desperdício de tempo.

Mas a sugestão é valiosa por prover-nos de uma possível explanação racional, em conformidade com a opinião do homem desperto, e à qual o sonhador iria indignadamente rejeitar.

Suponha, entretanto, um sonho tão vívido que o homem acordado sente-se diminuído diante de sua memória, que a sua consciência dele pareça mil vezes mais real do que a das coisas ao seu redor; suponha que toda a sua vida é moldada para acomodar os novos fatos assim revelados a ele; que ele de bom grado renunciaria a anos de vida normal para obter alguns minutos desta vida sonhada; que o seu senso de tempo é abalado como nunca antes, e que estas influências são permanentes. Então, você diria, delirium tremens (e intoxicação por haxixe, que afeta particularmente o sentido de tempo) nos fornecem um paralelo. Mas o fenômeno do delirium tremens não ocorre nos saudáveis. E quanto à sugestão de auto-hipnose, a memória do “sonho” é uma réplica suficiente. De qualquer forma, o simples fato de se experimentar esta realidade aparentemente superior — uma convicção inabalável, inépuisable[1] (pois o Inglês não tem a palavra adequada), é teste suficiente. E se nós condescendemos em o debater, é por prazer, e aparte do fato vital; trata-se uma escaramuça, e não de uma batalha arrojada.

O “sonho” que eu descrevi é o estado chamado Dhyana pelos Hindus e Budistas. O método de se alcançá-lo é sensato, saudável e científico. Eu não me daria ao trabalho de descrever este método, se iletrados, e muito freqüentemente defensores místicos da prática, não tivessem obscurecido a grandeza simples do nosso edifício com jimcrack pinnacles of stucco — como alguém que cobrisse o Taj Mahal com lâmpadas de feira e panos de chita.

É simples. A mente é compelida a fixar sua atenção em um único pensamento, enquanto o poder de controle é exercido e uma profunda vigília é mantida para que o pensamento não se perca por um instante. A última parte é, para mim, a essencial. O trabalho é comparável ao de um eletricista que precisa sentar por horas com seu dedo em uma delicadamente ajustada caixa de resistência, enquanto mantém o seu olho no marcador luminoso de um galvanômetro, encarregado da tarefa de manter o marcador parado, ou ao menos sem se mover além de um determinado número de graus, e de anotar os detalhes mais importantes da experiência. Nosso trabalho é idêntico em design, embora feito com meios mais sutis. O dedo na caixa de resistência nós substituímos pela Vontade, e o seu controle se estende até a Mente; o olho nós substituímos pela Faculdade Introspectiva, com a sua precisa observação da menor perturbação, enquanto o marcador luminoso é a própria consciência, o ponto central da escala do galvanômetro, o objeto pré-determinado; e as demais figuras da escala são outros objetos, conectados com o primário por ordem e grau, algumas vezes de maneira óbvia, outras de forma obscura, talvez até mesmo indetectável, de forma que nós não temos nenhum direito real de predicar a suas conecções.

Como alguém pode descrever este processo como enganoso e doentio está além da minha compreensão; que algum cientista possa fazê-lo implica em uma ignorância da sua parte quanto aos fatos.

Eu devo acrescentar que é estritamente necessário para se iniciar esta prática uma perfeita saúde de corpo e mente; o ascetismo é severamente desencorajado, tanto quanto a indulgência. Como poderia o eletricista fazer o seu trabalho após o Banquete Guidhal? O esforço de observar seria demasiado, e ele pararia para dormir. Assim com o meditador. Se, por outro lado, ele estivesse sem comer por vinte e quatro horas, ele poderia — de fato, tem sido assim feito com freqüência — realizar prodígios de trabalho no período necessário; mas uma reação de igual severidade deverá seguir. Ninguém pretende que o melhor trabalho seja feito em inanição.

Para tal observador, certos fenômenos se apresentam mais cedo ou mais tarde, os quais tem as mesmas qualidades do nosso “sonho” imaginário, precedido por um estado de transição muito semelhante ao de uma total perda da consciência. Serão estes fenômenos de fadiga? Será que esta prática, por algum motivo desconhecido, estimula algum nervo central especial? Talvez; o assunto requer investigação, e eu não sou um fisiologista. Aparte qualquer coisa que o fisiologista possa dizer, é claro ao menos que, se este estado é acompanhado por uma intenso e desapaixonado êxtase além de qualquer coisa que o homem normal pode conceber, e não é acompanhado do menor prejuízo para a saúde física e mental, ele é extremamente desejável. E para o cientista ele apresenta um magnífico campo de pesquisa.

Sobre as teorias metafísicas e religiosas que foram construídas sobre os fatos aqui apresentados, eu não direi nada agora. Os fatos não estão a disposição de todos; sobre a natureza do objeto cada homem deve ser a sua própria testemunha. Eu fui uma vez ridicularizado, por uma pessoa de mentalidade medíocre, pelo fato de que, se a minha posição não podia ser demonstrada em laboratório, eu deveria, portanto, ser um místico, um ocultista, um teosofista, um mercador do mistério, e não sei mais o quê. Eu não sou nada disso. O criticismo acima se aplica a todo psicólogo que já escreveu, e a todo homem que critica por criticar. Eu posso apenas dizer: “Você tem o seu próprio laboratório e aparato, a sua mente; e se o local está sujo e a aparelhagem mal arrumada, não é a mim que você deve culpar”.

Os fatos sendo de importância individual, então há pouca utilidade em se detalhar os resultados de minha própria experiência. E a razão para esta reticência — pois eu me culpo pela reticência — é que explicá-la iria danificar o mesmo aparato cujo uso eu estou defendendo. Pois se eu disser que tal e tal prática leva alguém a ver um porco azul, a sugestão será suficiente para fazer com que toda uma classe de pessoas veja um porco azul onde nenhum existe, e outra negue, ou suspeite, quando o porco azul realmente aparecer, embora a última alternativa seja improvável. O fenômeno da consciência, e o do êxtase, são de uma natureza tão estupenda e bem definida, que eu não posso imaginar nenhuma idéia preconcebida poderosa o suficiente para diminuí-los apreciavelmente. Mas por causa da primeira classe eu seguro a minha língua.

Eu creio que agora está perfeitamente claro, se as minhas declarações foram aceitas — e eu posso apenas assegurar o mais seriamente possível que honestos experimentos de laboratório as verificarão em cada detalhe — que quaisquer argumentos apresentados contra a realidade de Dhyana, aplicam-se com muito maior força ao estado normal, e é evidente que negar o último seriamente é ipso facto deixar de ser sério. Aonde o testemunho normal possa ser atacado de cima, insistindo-se na realidade superior de Dhyana — e a fortiori do Samadhi, o qual eu não experimentei, e do qual consequentemente não trato, contentando-me em aceitar as afirmações altamente prováveis daqueles que o afirmam conhecer, e que até agora não me decepcionaram (i.e. quanto a Dhyana), trata-se de uma questão que não cabe ao presente argumento discutir. Eu irei, entretanto, sugerir certas idéias na seção seguinte, na qual eu me proponho a discutir a mais famosa das meditações Budistas (Mahasatipatthana), seu método, objetivo, e resultados.

Mahasatipatthana

Esta meditação difere fundamentalmente dos métodos Hindus comuns pelo fato de que a mente não é restrita a contemplação de um único objeto, e não há interferência com as funções naturais do corpo, como, por exemplo, em Pranayama. É essencialmente uma prática de observação, a qual assume um aspecto analítico em relação a pergunta “O que é realmente observado?”.

O Ego-idéia é resolutamente excluído desde o início, e assim o Sr. Herbert Spencer não terá nada para objetar (“Princípios de Psicologia”, ii.404). A respiração, movimentos de andar, etc., são meramente observados e anotados; por exemplo, pode-se sentar quietamente e dizer: “Há um entrar da respiração”, “Há uma expiração”, etc. Ou, caminhando-se, “Há o erguer do pé direito”, e assim por diante, assim que o fato acontece. É claro que o pensamento não é rápido o suficiente para notar todos os movimentos ou as suas causas sutis. Por exemplo, nós não podemos descrever as complicadas contrações musculares, etc.; mas isto não é necessário. Concentre-se em uma série de movimentos simples.

Quando, através do hábito, isto se tornar intuitivo, de forma que o pensamento for realmente “Há um erguer”, ao invés de “Eu ergo” (este último sendo na realidade uma complexa e amadurecida idéia, como os filósofos freqüentemente notaram, até Descartes cair na armadilha), deve-se recomeçar a analisar, conforme explicado acima, e o segundo estágio será “Há uma sensação (Vedana) de um erguimento”, etc. As sensações são depois classificadas de agradáveis e desagradáveis.

Quando este for o verdadeiro, intuitivo, instantâneo testemunho da consciência (de forma que “Há um levantar”, etc. é rejeitado como sendo uma mentira palpável), passamos para Sañña, percepção.

“Há uma percepção (agradável ou desagradável) de um erguer, etc..”

Quando isto tiver se tornado intuitivo — ora! aqui está um estranho resultado! as sensações de dor e prazer desapareceram. Elas estão sub-incluídas na skandha inferior de Vedana, e Sañña é livre disto. E, para aquele que pode viver neste terceiro estado, e assim viver para sempre, não há mais dor; apenas um intenso interesse, semelhante ao que permitiu a homens de ciência observar e anotar o progresso de sua própria agonia de morte. Infelizmente, o viver neste estado é condicionado a uma firme saúde mental, e é interrompido pela morte ou pela doença a qualquer instante. Se assim não fosse, a Primeira Nobre Verdade seria uma mentira.

Os dois estágios seguintes Sankhara e Viññanam seguem a análise até o seu limite, “Há uma consciência da tendência para se perceber a (agradável ou desagradável) sensação de se erguer o pé direito” sendo a forma final. E eu suponho que nenhum psicólogo de qualquer linha irá questionar isto. O raciocínio, de fato, leva a esta analise; o Budista vai além somente até poder derrubar o andaime do processo de raciocínio, e assimilar a verdade atual do assunto.

É a diferença entre o garoto de escola que dolorosamente constrói “Balbus murum aedificavit”[2], e o Romano que anuncia este fato histórico sem sequer pensar em sua gramática.

Eu chamei esta meditação de a mais famosa das meditações Budistas, por quê é atestado pelo próprio Buda que se alguém a pratica com honestidade e diligência o resultado é certo. E ele não diz isto de nenhuma outra.

Eu pessoalmente não encontrei tempo para me devotar de forma séria a esta Mahasatipatthana, e as afirmações aqui feitas derivam da razão e não da experiência. Mas eu posso dizer que a irrealidade dos estados mais grosseiros (rupa) em relação ao mais sutil Vedana e ao ainda mais sutil Sañña torna-se rapidamente aparente, e eu posso apenas concluir que com tempo e esforço o processo deve continuar.

O que ocorre quando alguém atinge o estado final de Viññanam, e não encontra nenhum Atman além dele? Certamente o estágio de Viññanam será logo visto como tão irreal quanto o anterior pareceu. É inútil especular; mas se eu devo escapar da acusação de explicar o obscuro pelo mais obscuro, eu posso sugerir que tal pessoa deve estar muito próxima do estado chamado Nirvana, o que quer que seja indicado pelo termo. E eu estou convencido, em minha própria mente, que o Ananda (êxtase) de Dhyana irá surgir muito antes de alguém passar mesmo a Sankhara.

E, quanto à realidade, será um bravo gracejo, meus senhores, atirar de volta aos materialistas esta terrível troça de Voltaire aos mercadores de mistérios de sua época: “Ils nient ce qui est, et expliquent ce qui n’est pas”[3].

Nota à Seção VIII – Realismo Transfigurado

Não gastarei o meu tempo e o dos meus leitores com uma longa discussão sobre o “Realismo Transfigurado” do Sr. Herbert Spencer. Não colocarei em muitos detalhes como ele propõe, por uma cadeia de raciocínios, derrotar as conclusões que ele admitem serem as da razão.

Mas a sua afirmação, de que o Idealismo não é verbalmente inteligível, é, para o meu propósito, a melhor coisa que ele poderia ter dito.

Ele erra ao dizer que os idealistas são confundidos pela sua própria terminologia; o fato é que, as conclusões idealistas são apresentadas diretamente à consciência, quando esta consciência é Dhyanica (cfe. Seção XI).

Nada está mais claro para a minha mente, do que o fato de que a maior dificuldade, geralmente experimentada pela mente normal na assimilação da metafísica, deve-se à atual falta de experiência, na mente do leitor, do fenômeno discutido. Eu irei tão longe ao ponto de dizer que talvez, o próprio Sr. Spencer é tão amargo por não ter, ele mesmo, nenhuma experiência de “Realismo Transfigurado” como um fenômeno diretamente presente; pois se ele supõe que a mente saudável e normal pode perceber o que ele percebe, os argumentos de Berkeley devem lhe parecer mera e frívola estupidez.

Eu classifico a filosofia Hindu junto com o Idealismo, e a Budista com a do sr. Herbert Spencer; a grande diferença entre elas sendo que os Budistas reconhecem claramente estas (ou similares) conclusões como sendo fenômenos, e o sr. Spencer, bastante inconsistentemente, apenas como verdades verificadas por um raciocinar mais alto e mais correto do que o dos seus oponentes.

Nós reconhecemos, com Berkeley, que a razão nos ensina que o testemunho da consciência é inverídico; é absurdo, com Spencer, refutar a razão; ao invés disto, tentamos trazer à consciência o sentido de sua improbidade. O nosso diagnóstico (empírico) é o de que é a dissipação da mente a principal responsável por sua inconfiabilidade. Buscamos (também por meios empíricos, é claro!) controlá-la, concentrá-la, e observar, mais acuradamente — será que esta fonte de possível erro foi suficientemente reconhecida? — o que o seu testemunho realmente é.

A experiência me ensinou, até onde fui capaz de ir, que a Razão e a Consciência se encontram; Apreensão e Análise se beijam. A reconciliação (de fato, lembrem-se, e não em palavras) é ao menos tão perfeita que eu posso, confiantemente, predizer que uma futura busca nesta (empiricamente indicada) senda irá certamente levar a uma unificação ainda mais alta.

A realização das esperanças mantidas pela hipótese é, portanto, de claro e evidente valor no apoio desta mesma hipótese, empírica como ela era, e é. Mas, com o crescimento e a reunião, classificação, e criticismo dos nossos fatos, nós estamos no caminho certo para erguer uma estrutura mais segura sobre uma base mais ampla.

Agnosticismo

Deve ser claramente entendido, e bem relembrado, que, através de todas estas meditações e idéias, não há nenhum caminho marcado que leve a qualquer tipo de ontologia ortodoxa. Em relação ao caminho da salvação, nós não contamos com o Buda; a mentira viciosa da expiação delegada não encontra lugar aqui. O próprio Buda não escapa da lei da causação; se isto é metafísica, então até aqui o Budismo é metafísico, mas não mais do que isto. Ao mesmo tempo em que nega mentiras óbvias, ele não estabelece dogmas; todas as sua afirmações são passíveis de prova — uma criança pode perceber as mais importantes. E isto é Agnosticismo. Nós temos aqui uma religião científica. Até onde Newton teria ido se tivesse aderido a Tycho Brahe como o Guia? Até onde o Buda, se tivesse reverenciado os Vedas com fé cega? Ou até onde podemos prosseguir, mesmo a partir da verdade parcial, se não mantermos uma mente aberta a seu respeito, conscientes de que novos fenômenos podem derrubar as nossas hipóteses mais fundamentais! Me dê uma prova sobre uma existência (inteligente) que não esteja sujeita ao sofrimento, e eu jogarei a Primeira Nobre Verdade aos cães sem nenhuma dor. E, sabendo disto, quão esplêndido é ler as grandes palavras proferidas a mais de dois mil anos atrás: “Portanto, ó Ananda, sejam lâmpadas para si mesmos. Sejam um refúgio para si mesmos. Não recorram a nenhum refúgio externo. Busquem sem tardar a verdade como a uma lâmpada. Busquem sem tardar a verdade como a um refúgio. Não busquem refúgio para ninguém além de si mesmos.” (Mahaparanibbana Sutta, ii.33) E a tais buscadores apenas o Buda promete “a mais elevada Altura” — se eles apenas forem “ansiosos em aprender”. Esta é a pedra fundamental do Budismo; podem homens científicos negar a sua aprovação a estas palavras, quando olham para trás, na história do Pensamento no ocidente: a tortura de Bruno, a vergonha de Galileo, o obscurantismo dos Escolásticos, o “mistério” dos padres opressores, as armas carnais e espirituais da fogueira e da tortura, os labirintos de mentiras e vis intrigas pelos quais a Ciência, a criança, era deformada, distorcida, atrofiada, no interesse da proposição contrária?

Se vocês me perguntarem por que deveriam ser Budistas, e não indiferentes, como agora são, eu respondo que venho, talvez desmerecidamente, tomar a espada que Huxley manejou; eu digo que o Opressor da Ciência em sua infância ainda está trabalhando para violentar a sua virgindade; que uma hesitação momentânea, por comodismo, seguramente pode nos tirar da posição tão arduamente ganha. Não iremos ainda mais a frente, além disto? Devem ainda às nossas crianças serem ensinadas como fatos as estúpidas e indecentes fábulas do Velho Testamento, fábulas que o próprio Arcebispo de Canterbury iria indignadamente repudiar? Devem as mentes serem pervertidas ainda cedo, o método científico e a imaginação reprimidas, a faculdade lógica frustrada — milhares de trabalhadores perdidos a cada ano para a Ciência?

E o caminho para tudo isto não é apenas através no senso comum da indiferença; organizem-se, organizem-se, organizem-se! Pois uma bandeira nós oferecemos a vocês, a imaculada insígnia da lótus de Buda, em defesa da qual nenhuma gota de sangue jamais foi, e jamais será, derramada; uma bandeira sob a qual vocês juntarão forças com quinhentos milhões de companheiros. E vocês não serão soldados rasos no exército; para vocês os mais altos postos, os lugares de liderança, aguardam; quando se diz respeito aos triunfos do intelecto, é para a Ciência ocidental que olhamos. Suas realizações destruíram a ordem de batalha do dogma e do despotismo; suas colunas avançam com poder triunfante através das brechas da falsa metafísica e da lógica sem base; vocês lutaram a batalha, e os louros estão em suas testas. A batalha foi lutada por nós a mais de dois mil anos atrás; a autoridade dos Vedas, as restrições de casta, foram esmagadas pela invulnerável espada da verdade na mão de Buda; nós somos seus irmãos. Mas na corrida do intelecto nós ficamos um pouco para trás; não terão vocês interesse em nós, que fomos seus camaradas? O Budismo clama pela Ciência: Lidera-nos, reforme-nos, dê-nos idéias claras sobre a Natureza e suas leis; dê-nos a base da lógica irrefutável e o amplo conhecimento de que precisamos, e marchem conosco rumo ao Desconhecido!

A fé Budista não é uma fé cega; suas verdades são óbvias para todos os que não estão cegos pelos espetáculos de bibliolatria e ensurdecidos pelo clamor dos padres, presbíteros, ministros: qualquer nome que eles escolham para si mesmos, nós podemos ao menos colocá-los de lado em uma grande categoria, a dos sufocadores do Pensamento; e estas verdades são as que nós a muito tempo aceitamos e que vocês recente e duramente conquistaram.

É para homens do seu talhe, homens de pensamento independente, de fino êxtase amoroso pelo conhecimento, de treinamento prático, que o Buddhasanana Samagama apela; é hora do Budismo reforma-se por dentro; embora sua verdades tem se mantido impolutas (e mesmo isto não ocorre em toda parte), seus métodos, sua organização, estão em triste necessidade de reparos; buscas devem ser feitas, homens devem ser aperfeiçoados, o erro deve ser combatido. E se no Ocidente uma grande sociedade Budista for construída por homens de intelecto, homens em cujas mãos está o futuro, haverá então um despertar, uma verdadeira redenção, dos desgastados e esquecidos impérios do Leste.

Fonte: Morte Súbita Inc.  – autor: Aleister Crowley – Tradução: Dajjal (Fra.)

Continuando com as matérias esclarecedoras sobre simbologia , dessa vez iremos fazer uma rápida viagem até  as índias, onde conheceremos uma grande divindade hindu, conhecida por justamente se apresentar em uma forma incomum que pode até causar estranheza , seu nome é Ganesha ( sânscrito : श्रीगणेश).

Antes de  explicar o significado dessa popular divindade, vamos entender um pouco mais sobre o hinduísmo e seus conceitos.

O hinduísmo, também é conhecido como “ religião eterna “ e tem essa definição por não se  ter conhecimento de quem a fundou  ou a introduziu, teve seu inicio as margens do Rio Ganges a mais ou menos 5 mil atrás . O hinduísmo engloba uma série de ensinamentos , tradições e mitos, onde existem milhares de divindades  ,dentre as principais citaremos :

Brahma :  A causa , a origem e a própria essência do universo, sem ele nada existe.

Vishnu :  A força que mantém toda a vida ,  força que cura e salva.

Shiva : É o renovador, assim como cria também destrói, é o destruidor  que renova e recria.

As divindades hindus são muitas vezes representadas como tendo vários braços e cabeças, o que simboliza seus muitos poderes ( virtudes ) .

Bem, não vamos nos aprofundar no hinduísmo, nosso propósito é apenas dar um exemplo de uma forte simbologia , o básico do  hinduísmo é o conhecimento interior e a figura de Ganesha representa isso de forma exemplar, de entendimento fácil e intuitivo.

Ganesha é o filho primogênito de Shiva, o destruidor e Parvati, a deusa da natureza. Ele é representado em um corpo de menino com cabeça de elefante e possuí quatro braços.

Uma das coisas mais interessantes ao se estudar o hinduísmo é notar que todas as divindades representam não um deus propriamente dito, mas sim aspectos ou virtudes humanas, no caso de Ganesha não é diferente, ele é o símbolo do conhecimento  e sabedoria.

Segundo o hinduísmo, Ganesha foi o escriba dos textos védicos, usando para isso um pedaço de seu próprio marfim que serviu como pena, notemos que, os vedas são os únicos escritos do hinduísmo, divididos em quatro livros, contém todo o conhecimento do hinduísmo, e foram assim escritos pela divindade que simboliza o conhecimento e sabedoria,  ou seja, os vedas foram “ escritos” pelo conhecimento usando uma ferramenta da sabedoria.

O mais interessante sem dúvida é a simbologia da própria divindade Ganesha :

Orelhas grandes : Escutar bem, saber ouvir os ensinamentos ( Sravanam ).

Olhos pequenos : Enxergar com concentração , se concentrar no que se aprende.

Boca pequena : Falar menos  e apenas o essencial.

Cabeça grande : Ter a capacidade de aprender sempre mais,ser inteligente, não esquecer o que foi  ensinado, possuir a “ memória de elefante “.

A barriga saliente : Ter a capacidade de “engolir, digerir  e assimilar “ todos os obstáculos lentamente, assim como todo conhecimento adquirido.

A tromba : Representa o discernimento entre o espiritual e o material e mundano.

Ganesha possui quatro braços, onde cada um deles segura um objeto ou faz um sinal especifico em cada mão, a mão superior direita carrega um pequeno machado, que simboliza o “corte” aos apelos materiais e dos desejos do ego, elimina os obstáculos  para que a mente compreenda melhor os ensinamentos e atinja o conhecimento mais facilmente.

A mão superior esquerda, segura normalmente uma lótus mas algumas vezes também pode segurar um laço,  onde representa   o apego a verdade, ser “amarrado” ao eu verdadeiro, a realidade suprema,  o “eu” absoluto, enquanto a lótus define a natureza pura, imaculada  e absoluta.

Na mão inferior direita vemos o mudra “Abhãya Mudra” que faz  referência a preparação mental, normalmente usada para fazer uma meditação, um estado de preparo mental.

Já não mão inferior esquerda vemos um prato recheado com “Modaka” um doce hindu feito de arroz e leite, onde é representado a satisfação,  a plenitude ao se alcançar o caminho da disciplina e do  autoconhecimento, o prêmio pela vitória acima do ego.

O pequeno  rato que aparece no chão perto da divindade  e que muitas vezes entra em cena como sendo a montaria de Ganesha,  representa o EGO , seus desejos, voracidade e cobiça, sempre “roubando” mais  do pode comer , ao ilustrar Ganesha montando o  rato é simbolizado  que o conhecimento se sobrepõe ao ego, o controlando e o guiando no caminho da sabedoria e do autoconhecimento.

A figura de Ganesha que é o filho primeiro de Shiva ( destruição para renovar ) e Parvati ( natureza, pureza e imponência ) , representa tão somente o conhecimento, a sabedoria, e sua imagem nos lembra a todo momento o caminho que deve ser seguido para se alcançar esse conhecimento, simples assim.

Existem outras simbologias  na divindade Ganesha, mas creio que essas sejam as principais, que mostram claramente como a simbologia tem  um impacto direto no nosso subconsciente e que vista sem a intromissão do ego  ela se faz completamente aceitável e faz  todo sentido.

Até a próxima matéria sobre simbologia e seus significados.

Com a mudança de era, conceitos que nem são tão novos assim começam a ter mais destaque em nosso dia a dia ,e alguns, de forma muito superficial e sem muito conhecimento são divulgados de forma “popular e folclórica” criando muita confusão e entendimentos completamente sem cabimento.

É normal ver uma quantidade de informação referente a símbolos antigos  , esoterismo , misticismo e conceitos originários de escolas de conhecimento antigo e ocultismo.

Quem já esta familiarizado  com conceitos esotéricos e conhece seu significado consegue distinguir o conhecimento que se apresenta, sua simbologia, seus significados que apenas dizem respeito ao interior humano e seus muitos mistérios .

O grande problema se da quando  a maioria das pessoas  apenas observa o obvio, aquilo que se coloca a sua frente ,e não está “ treinado “ para observar o significado de toda essa simbologia ou textos que ao primeiro momento parecem conter uma enigmática incógnita, recheada de  segredos incompreensíveis.

Não terei a pretensão de explicar os detalhes de simbologias e mesmo esoterismo, o que seria até impossível nessa pequena matéria, não existe nenhuma possibilidade de explicar apenas em um simples texto de poucas palavras a profundidade do conhecimento esotérico e filosófico que acompanha a humanidade a milênios, mas tentarei desmistificar na medida do possível alguns pontos, os quais considero de importância para um entendimento  mais claro e menos supersticioso, que pode ser compreendido por qualquer pessoa, independente de religião ou credo.

É de extrema importância para se entender a função de muitos simbolismos que vemos hoje em dia que se tenha algum conhecimento de história antiga, civilizações antigas, sua cultura, costumes e tradições.Civilizações como os egípcios, Maias e Astecas,Celtas e Nórdicos, culturas indígenas americanas, australianas e asiáticas e é claro os antigos chineses e hindus.

Depois de termos adquirido algum conhecimento sobre todas essas civilizações perceberemos que embora algumas delas nunca terem se relacionado, pelo menos até onde a história é conhecida, é notado que de alguma forma elas estavam interligadas, que em tempos remotos havia uma espécie de conceito universal que se expandiu através de todo o planeta, e que  esse conceito, embora tivesse muitos nomes diferentes variando de civilização para civilização ou mesmo de tempos em tempos continuava o mesmo, como poderiam esses conhecimentos serem transmitidos através do mundo e do tempo entre várias civilizações que tinham cada qual sua linguagem distinta, escrita própria e em alguns casos nem sequer escrita tinham ?

A  resposta para isso é SIMBOLOGIA, da mesma forma que hoje temos sinalizações que identificamos de imediato, como os sinais de trânsito, entre outros, também na antiguidade se usavam símbolos para transmitir uma mensagem, um sinal e até mesmo um conhecimento.

Provavelmente a grande maioria dos símbolos que vemos nos dias de hoje tiveram suas origens oriundas dos antigos Celtas, onde os conhecimentos de sua cultura não eram transmitidos de forma escrita, pois eles acreditavam que o conhecimento é uma “faca de dois gumes” quando usada indevidamente poderia ser corrompida, isso na melhor das  hipóteses.

Outra cultura que teve nos símbolos uma importante forma de comunicação e transmissão de conhecimentos foi sem dúvida os egípcios, com uma vasta simbologia de profundo conhecimento sobre o universo, o homem e a natureza.

Natureza, talvez esse ponto principal que concentra provavelmente a maior parte de símbolos que vemos e não temos a capacidade de reconhecer e compreender seu significado de imediato, é inegável que os símbolos causam um impacto em nosso sub-consciente,  mas por que ?

Chegamos agora em ponto muito interessante, é onde iremos compreender a real função dos símbolos e como eles exercem uma comunicação com nosso inconsciente, além é claro, de ser uma forma de  transmissão de pensamento que não esta sujeita a ser corrompida pelas divergências culturais e linguísticas que são diferentes entre os povos.

Os antigos , acreditando que a única forma de viver harmoniosamente com o mundo  e entre si era conhecer a principio o seu próprio “eu”,não seria possível entender o ambiente que um ser vive sem compreender o próprio ser antes de  tudo,então desde muito cedo essas civilizações entenderam que cada ser humano é um ser complexo que não era apenas constituído de matéria, embora compreenderam que a própria matéria, o corpo físico era formado de hierarquias que juntas formavam o corpo humano, e assim , seguindo esse raciocínio lógico chegaram ao ponto de detectar que embora todos os homens fossem fisicamente e estruturalmente iguais, existiam diferenças entre eles, pensamentos diferentes, vícios, comportamentos variáveis que não seguiam um padrão assim como a hierarquia física.

Descobriram que o ser humano era também constituído de uma hierarquia “invisível” , que assim como o corpo físico, ela também possuía “ órgãos vitais “ , hoje conseguimos identificar o mais importante desse “ órgão “ , nós o chamamos de EGO.

Para ilustrar de forma mais fácil de ser entendida, vamos colocar da seguinte forma :

Você e seu ego são duas pessoas completamente diferentes, imagine você como a pessoa consciente, que você conhece bem, que faz suas tarefas do dia a dia, vai  trabalhar, dorme, etc.

Agora pense no ego como sendo uma outra pessoa, que tem necessidades diferentes, que pensa completamente diferente de você, e que por assim ser, tem um comportamento e uma vida que de forma alguma tem qualquer semelhança com o você  “você”.

Partindo desse principio, a linguagem que nos comunicamos com outras pessoas , não é entendida da mesma forma pelo EGO, para que possamos entrar em contato com nosso EGO é preciso acima de  tudo conhecer e saber diferenciar o que em nós é o nosso “eu” real e o que é o EGO.

A linguagem dos símbolos como vimos, é usada tanto para uma transmissão de conhecimentos  e também para criar um veículo de comunicação com o EGO, alguns símbolos, quando apenas observados pelo nosso “eu” terá um entendimento diferente da observação do EGO, obviamente que isso irá criar , quando visto pelo “eu”  , uma informação completamente deformada de seu real propósito e entendimento quando direcionada ao EGO e vice-versa.

Um exemplo clássico disso é a famosa e “sinistra” figura do Baphomet ou Bode de Mendes.

Definida originalmente, até onde se sabe, pelo ocultista Eliphas Levi, o Baphomet a vários anos vem assombrando o imaginário das pessoas pelo mundo, por que simplesmente é vista com os olhos do EGO.

Na verdade essa figura é muito interessante, riquíssima em símbolos,  que por incrível que pareça não representa o “ senhor das trevas “ , pelo menos não o senhor das trevas imaginário que mitologicamente foi criado para ser o “ antideus  judaico-cristão“ , o Baphomet representa o interior humano ( agora confundiu tudo não é ? mas calma…chegaremos lá… ).

Ele é a representação de ninguém menos do que … o EGO, isso mesmo, ele representa o que existe dentro de nós, cada simbolo presente nessa sinistra figura representa um aspecto do ser humano que necessita ser melhorado e lapidado.

Não entrarei em detalhes do significado de cada um dos símbolos  que se apresentam na figura do Baphomet, pelo menos não nessa matéria a qual serve apenas como um pequeno esboço da grandiosidade e profundo significado da vasta simbologia que faz parte do antigo conceito do “ conhecer  o ser antes do ambiente “ que nada mais é do que uma simples definição de CONHECIMENTO ESOTÉRICO, entender o que está dentro para poder entender o que está fora.

Escolas de conhecimento antigo usam os símbolos para “despertar” a consciência do ego, trazendo o conhecimento de sua existência para que seja analisada pelo “eu” e assim poder “educá-lo “ colocando barreiras nele e se autodisciplinando, até que, finalmente se consiga mudar a aparência sinistra e sombria que existe dentro de nós, o Baphomet interior, que precisa ser melhorado e consequentemente se tornar apenas e unicamente o  “eu” consciente, que estará enfim pronto para conhecer o ambiente a que pertence.

Espero que essa simples explicação consiga passar um pouco do vasto conhecimento sobre a gigantesca simbologia que existe desde tempos muito antigos, que embora não seja de conhecimento fácil a principio merece ser estudada com paixão, pois apenas diz  respeito a aspectos de grande interesse para nossa melhoria  como seres humanos, que irá refletir em nossa conduta ética, moral, perante a nossa sociedade que anda tão empobrecida e fatalmente doente, devido a falta do mais básico e primordial conhecimento, o de nós mesmos.

Autor : Kyoshi  Taka

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O clássico da Disney , lançado em 1940 vai muito além de uma simples estória infantil.

Se trata de uma alegoria esotérica e espiritual, que nos dias de hoje acabou passando despercebida aos olhos da grande maioria, uma forma de ensinamento para o despertar da conciência e auto-conhecimento.

Creio que todos já devem ter assistido ao desenho original da Disney, de qualquer forma postarei o link do youtube para quem quiser fazer comparações e análises do mesmo.

Lembrando que não tenho nenhuma intenção de criar nenhum tipo conceito pré formado, e muitas das afirmações que postarei dizem respeito a pesquisas que podem ser feitas por qualquer pessoa e delas tirar o entendimento que preferir.

Todos sabemos que Pinóquio conta a estória do boneco de madeira que deseja se tornar um menino ( um homem autêntico e auto-consciênte ).

O criador do personagem Pinóquio, foi o escritor  italiano Carlo Lozenzini ou Carlo Collodi em 1881, Lorenzini era um maçon de formação e muito ativo, que escrevia para vários jornais da época, com um senso muito crítico, costumava criar personagens sátiros para falar sobre sua visão política daquele momento.

” As aventuras de Pinóquio ” de 1883, era uma fábula infantil sobre as aventuras e desaventuras  de uma marionete em sua ansiosa busca para se tornar um menino de carne e osso.

Pinóquio, assim como a maioria das obras esotéricas, tem duas maneiras de serem compreendidas, assim como a biblía , o mais popular dos livros esotéricos, tem seu lado ” profano ” , voltado aos leigos  e a outra parte ” esotérica ” onde existe toda uma simbologia que não passa desapercebida pelos iniciados do esotérismo,atráves da narrativa inocênte e muitas vezes tola dos acontecimentos.

Lorenzini tomou todos os cuidados ao criar uma narrativa que segue a risca uma antiga tradição de textos esotéricos e místicos, com uma estória simples e direta que faz todo sentido para a grande massa e outra com um significado oculto e também direto aos esotéricos.

A estória narrada no desenho tem algumas significativas diferenças do livro original, onde foi ajustada para um entendimento mais simples e direto do que se propõe a ensinar.

No desenho, Pinóquio é o boneco teimoso e de caráter duvidoso as vezes, que tem no velho artesão Gepeto o seu criador, é aqui que começam os ” ensinamentos ocultos “, Gepeto pode ser considerado de certa forma o ” Demiurgo “, citado por Platão, onde ele é o deus menor entre os deuses do mundo matérial, a entidade que cria os seres não evoluidos e imperfeitos, que devem passar pelos percalços da vida fisíca.

Após criar o boneco ,Gepeto vibra com sua mais nova criação, mas sente que ele não está completo, então pede ajuda ao grande deus para que inflinja em Pinóquio a chama da vida, que transformaria o boneco em uma pessoa de verdade, ou seja em um ” homem iluminado “.

A fada que aparece para dar ao boneco a “centelha da mente universal ” é a representação da “Mãe Divina ” que nada mais é do que a “Mente Universal” que concedeu a conciência a todos os seres vivos.

A fada da a  Pinóquio então o dom da vida, do livre arbítrio, mas ele ainda não é um menino de carne e osso, isso por que a vida real de um ” homem autêntico ” só tem inicío quando ele realmente se ” ilumina “.

Segundo a maçônaria: ” A salvação espiritual é algo que tem de ser merecida por meio da auto-disciplina, auto-conhecimento e força de vontade intensa”.

Pinóquio começa então sua grande aventura para a ” iluminação” partindo de um pedaço de madeira bruta e sem vida, para  se tornar um homem consciênte e autêntico, porém um processo interior deve ocorrer para tal mudança, ele deve lutar contra desejos primitivos e contra toda sorte de tentações, e lutando muitas vezes contra sua própria consciência ( simbolizada pelo Grilo-Falante ),sendo o primeiro desafio obter o conhecimento, que é simbolizado pela Escola, e assim por diante uma série de acontecimentos e tentações atravessam seu caminho.

No caminho para a escola, Pinóquio encontra uma raposa e um gato, que tentam atraí-lo para o ” caminho mais fácil ” da fama e do sucesso, o “Show Business ” , enquanto sua consciência o adverte a todo instante, ele então é vendido a um circo de fantoches ambulante.

Logo Pinóquio já estará habituado a todas as regalias do caminho mais fácil, fama, fortuna e até mesmo lindas marionetes.

Rapidamente ele também descobre que não poderá ver seu criador novamente, que o dinheiro que ele ganha só serve para enriquecer seu dono, e que quando não for mais de utilidade , terá um destino pouco glorioso.

Só então ele se da conta de que ” vendeu sua alma ” aos desejos vulgares, então tem de volta sua consciência e tenta escapar, mas agora somente uma intervenção divina pode salvá-lo, reconhece seus erros e então a fada ( Mãe Divina ) o liberta.

Ao tentar voltar ao caminho da escola ( conhecimento ) ele novamente é interrompido pela figura da raposa, que dessa vez o atrai para a ” Ilha dos Prazeres ” , um lugar onde não existem escolas e nem leis, onde as crianças podem fazer o que bem quizerem, tudo sob olhar atento da  sinistra figura do “Cocheiro”.

A Iha do prazeres é a metáfora da ” vida profana ” que caracteriza a ignorância, a busca pela satisfação imediata, a realização dos desejos e impulsos mais superficiais e baixos de cada um.

O Cocheiro obviamente incentiva esse comportamento, sabendo que isso é perfeito para seus objetivos de obter mais escravos para seus propósitos, logo as crianças começam a se transformar em burros, que são utilizados pelo Cocheiro para trabalhar em um mina.

Pinóquio começa então a se  transformar em um burro, ou seja, ele é um ser totalmente matérial, que já abandonou quase toda essência de sua conciência espiritual, que tem todo o seu teor retirado da obra clássica ” As Metamorfoses ” , curiosamente uma leitura obrigatória em escolas de mistério ( maçonicas ).

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Novamente Pinóquio escapa da vida profana, recupera sua consciência e retoma seu caminho de volta para casa, para estar junto de seu pai, o criador.

Ao chegar, ele percebe que a casa está vazia, e que Gepeto havia ido ao seu encontro, descobre também que ele havia sido engolido por uma baleia, Pinóquio então salta na água e ele é engolido pela baleia também, e por fim encontra seu criador.

Essa é uma parte muito interessante, pois nos revela que a iniciação final do boneco que deseja se tornar um menino está chegando ao seu clímax .

O ventre escuro da baleia representa a vida ignorante, e a procura pela saida é a luz espiritual, a luz da consciência plena e sem obscuridades.

É importante notar que essa parte do desenho tem um grande significado oculto e esotérico, baseado no  ” Livro de Jonas ” e também leitura obrigatória do esotérismo.

“Jonas é também o personagem central do livro de Jonas. Ordenado por Deus para ir para a cidade de Nínive profetizar contra ele “por que sua maldade subiu até mim” Jonas procura fugir “a presença do Senhor”, indo para Jaffa e navega para Társis.Uma enorme tempestade surge e os marinheiros, percebendo esta não é uma tempestade comum, colocam a culpa em Jonas. Jonas admite a culpa e afirma que se ele for jogado ao mar a tempestade vai cessar. Os marinheiros tentam levar o navio para a costa, mas não conseguem então são obrigados a jogá-lo ao mar, nesse momento o mar se acalma. Jonas milagrosamente se salva mas é engolido por um peixe gigante, especialmente preparado por Deus, onde passou três dias e três noites (Jonas 1:17). No capítulo dois, já dentro do enorme peixe, Jonas reza a Deus em sua aflição e compromete-se a ação de graças e de pagar o que ele prometeu. Deus ordena o peixe a vomitar Jonas para fora “.

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Manly Palmer Hall, em seu livro ” Os Ensinamentos Secretos de Todas as Eras de 1928, ele diz :

“Quando usado como um símbolo do mal, o peixe representa a terra (natureza inferior do homem) e o túmulo (o sepulcro dos Mistérios). Assim, foi Jonas três dias no ventre do “grande peixe”, como Cristo foi três dias no sepulcro. Vários pais da igreja primitiva acreditava que a “baleia” que engoliu Jonas era o símbolo de Deus Pai, que, quando o profeta infeliz foi lançado ao mar, aceito Jonas em sua própria natureza, até um lugar de segurança foi lhe atingido. A história de Jonas é realmente uma lenda da iniciação nos mistérios, e o “grande peixe” representa a escuridão da ignorância que engole o homem quando ele é jogado para o fora do navio (nasce) no mar (vida) “.

Finalmente, Pinóquio conseguiu superar as dificuldades de seu aprendizado, se livrou da escuridão da ignorância, emerge da tumba ressucitado ( alguma semelhança com uma conhecida história ? ) , agora ele é o menino de verdade, um homem iluminado que conseguiu se livrar da vida material e abraçar seu eu interior e superior, o Grilo-Falante, ganha um distintivo de oura da fada, simbolizando seu sucesso no processo “alquímico” interior de transformar a consciência de Pinóquio, da madeira bruta ao ouro.

Visto pela forma infantil não centralizada, o desenho se transforma em uma aventura aleatória, mas vista de um ponto de vista diferente, ela é uma fábula espiritual da busca interior pela consciência do eu e seu verdadeiro lugar no mundo e perante a consciência de Deus.

Pinóquio é uma fábula de conteúdo iniciático esotérico / mistico, inspirado em clássicos  esotéricos , como ” As Metamorfoses ” e  ” Jonas e a Baleia ” , transformando o aparente inocênte desenho em uma poderosa e importante obra do conhecimento da ” iluminação “.

Como sempre, deixo que cada um tire suas próprias conclusões, não aceitando isso como verdade absoluta, mas sim algo que necessite da pesquisa pessoal, da opinião própria e analize consciênte e objetiva.