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Não medite – seja!

Não pense que você é – seja!

Não pense sobre ser – você é!

cosmic man

Os ensinamentos de Sri Ramana apontam que o Ser (Self ou Atman [1]) ou Pura Consciência é a única realidade e o verdadeiro “Eu” de todas as coisas, e que isso já é naturalmente assim, não sendo necessário “alcançar” a Iluminação, mas apenas remover os obstáculos – mentais, imaginários – que aparentemente a ocultam. Em suas palavras:

 

O sentimento “eu não realizei” é o obstáculo à Realização. Na verdade já há a Realização. Não há nada mais a ser realizado. Se houvesse, a realização seria algo novo que não existia antes, mas que acontecerá em algum momento no futuro; mas tudo o que surge também desaparece. Se a Realização fosse algo assim não seria eterna e, sendo transitória, não valeria a pena ser buscada. Portanto, o que nós buscamos não é algo que vai começar a existir, mas sim aquilo que existe eternamente mas que está velado por nossas obstruções mentais. Tudo o que precisamos fazer é remover a obstrução.

Não existe o “realizar o Ser”. Como é possível real-izar, ou “tornar real”, aquilo que já é real? As pessoas “realizam”, ou encaram como real, o que é irreal, e tudo o que precisam é desistir de fazer isso. Quando você fizer isso você permanecerá como [realmente] é e sempre foi, e o Real será Real. Todas as religiões e suas práticas surgiram apenas para ajudar as pessoas a desistirem de ver o irreal como real.

 

O obstáculo ou ignorância espiritual (avidya ou ajnana), para Bhagavan, nada mais é do que a mente, que é um nome coletivo para todos fenômenos mentais ou pensamentos (neste termo também englobados outros movimentos tais como sentimentos, intuição, memória, sensação, insights, emoções, percepções, etc.). Transcendida a mente, a pessoa descobre que há apenas o Ser, que tudo é o Ser, e que sempre houve apenas o Ser, sem qualquer modificação. Ela compreende, por fim, que mesmo a mente (que era o aparente obstáculo ao Ser) nada mais é do que uma manifestação ilusória do próprio Ser, e que aquele que estava aprisionado era nada mais do que um produto da própria mente: um conceito.

 

Muito bem, este é o ponto que todas as práticas e filosofias que tem como essência a não-dualidade concordam. Agora, Ramana Maharshi aponta que todos os fenômenos mentais tem uma raiz única, um denominador comum, e que este é o pensamento-“eu” (aham vritti), ou ego. Em outras palavras: tudo o que surge na mente e todos os mais variados elementos da experiência humana tem como DNA comum esse sabor de “eu individual”. Tudo o que acontece no “meu universo” acontece para mim e – Bhagavan ousa dizer para aqueles que estão prontos a entender – sua própria existência depende da existência do observador. Esse “conceito de eu” nada mais é do que uma falsa identificação entre a Pura Consciência (que é por natureza imaterial, ilimitada e intangível) e o corpo.

 

O Eu Real é Pura Consciência. Porém, a pessoa se identifica com o corpo que é insensível. O corpo não diz “eu sou o corpo”. O Eu ilimitado também não o faz. Alguém diz – quem é? Um “eu” imaginário surge entre a Pura Consciência e o corpo inerte e se imagina limitado ao corpo. Busque esse eu e ele desaparecerá como um fantasma. Este fantasma é o ego, a mente, ou a individualidade.

 

O ego nada mais é do que uma distorção do Ser; ele é a primeira manifestação, o primeiro conceito de maya, e também a porta de retorno ao estado original. O Maharshi aponta que qualquer prática ou esforço espiritual tem como ponto de origem o ego (que é o “fazedor” do esforço e aquele que busca os resultados), já que o puro Ser não tem qualquer necessidade de prática espiritual, já sendo a própria Realidade do Nirvana. Sendo assim, todo “esforço espiritual” tem o condão apenas de alterar o ego, sublimando-o e purificando-o, mas não de “eliminar” o ego, já que a própria prática é baseada em uma noção equivocada de se estar em um “estado de não-iluminação”.

 

O Eterno só não é reconhecido como tal devido à ignorância; logo, a ignorância é o obstáculo. Livre-se dela e tudo estará bem. A ignorância nada mais é do que o pensamento – “eu” – descubra sua fonte e ele desaparecerá.

Como todos os outros pensamentos só podem surgir depois do aparecimento do pensamento-eu, e como a mente nada mais é do que um conglomerado de pensamentos, é apenas [voltando a atenção ao pensamento-eu] através da inquirição “Quem sou eu?”  que a mente será extinta. Além disso, o pensamento-eu – implícito na investigação “Quem sou eu?” – destruirá todos os outros pensamentos e, como a vareta usada para avivar a pira funerária, no final ele mesmo será consumido.

 

Qual é, então, a sugestão inovadora de Sri Ramana para transcender essa ilusão de “eu”? É de que, em vez que presumir que somos um ser individual (incompleto e imperfeito), e então adentrar em um árduo processo de purificação ou superação da mente – que é essencialmente não-existente – devemos apenas voltar nossa atenção para dentro e questionar a validade desse “eu”. Qual é a identidade do “buscador” ou “praticante”? Quem sou eu? Essa é a autoinquirição (atma vichara) ensinada pelo Mestre.

 

Este é o método direto. Todos os outros métodos só podem ser praticados retendo-se o ego, e neles surgem muitas dúvidas, enquanto que a pergunta última é apenas atacada no final. Mas neste método, a pergunta última é a única pergunta e ela é levantada desde o começo. A tentativa de destruir o ego ou a mente por outros métodos que não a autoinquirição é como o ladrão que se torna policial para pegar o ladrão que é ele mesmo. Apenas atma vichara pode revelar a verdade de que nem o ego nem a mente realmente existem, assim possibilitando a realização do Ser puro e indiferenciado do Eu Real ou Absoluto.

 

Mas, como “praticar” essa investigação? O método da autoinquirição, em uma palavra, consiste em manter a atenção focada internamente no puro sentimento de existir, o EU SOU, evitando qualquer associação, retornando sempre a este espaço através da pergunta “quem sou eu?”.

Explica-se. Conforme dito anteriormente, o ego – matriz do samsara – é essa “mistura” da Pura Consciência (que brilha como o puro EU SOU) e o corpo, que em si é inerte, e a voz dessa identificação é a impressão profunda de que “eu sou o corpo” ou “eu sou a mente” ou “eu sou isso/aquilo, assim/assado”. Enquanto o Ser é apenas o “EU SOU”, o ego é o “EU SOU + algo”, sendo este “algo” o que os hindus chamam de upadhi, ou adjunto limitador. É limitador porque qualquer coisa com a qual a Consciência se identifique lhe dará uma falsa sensação de ser aquilo, de estar contida nos limites daquele fenômeno, enquanto que todos os fenômenos são apenas movimentos observados dentro desse espaço-Consciência (chit-akasha), movimentos esses que tem como características aquelas três apontadas pelo Buda Gautama: impermanência, não-eu (vazio) e insatisfatoriedade. Portanto, quando a atenção, que é o aspecto dinâmico da Consciência manifestando-se enquanto ser humano, fixa-se no puro sentimento de EU SOU, a Consciência permanece enquanto apenas Ser, sem se associar com nada, não se manifestando como ego (que nada mais é do que uma distorção do Ser-Consciência). Com esse simples exercício o ego e todo o seu universo é imediatamente transcendido.

“Eu sou” é a realização. Seguir essa “pista” até o fim é a autoinquirição. “Eu sou” é o objetivo e a realidade final.

É natural que o conceito-de-“eu” retorne e se “prenda” ao Ser, assim parecendo ocultar a realidade. Contudo, com a prática constante dessa contemplação do EU SOU a atenção passa a permanecer na não-localidade da Consciência com cada vez mais facilidade e por cada vez mais tempo. Quando esse permanecer como “eu sou” – daí a frase do Ramana “seja quem tu és” – torna-se completamente espontâneo e inafastável, há o que se chama de Realização ou Iluminação.

 

Quando a mente investiga a sua própria natureza incessantemente será descoberto que não existe nada como “mente”. Este é o caminho direto aberto a todos.

Por trás de todos os pensamentos há um pensamento geral, que é o “eu”, ou seja, você mesmo. Mantenha-se neste pensamento-eu e investigue o que ele é. Quando essa investigação tomar conta de você, você será incapaz de pensar outros pensamentos.

A prática espiritual (abhyasa) consiste em retornar ao Eu Real toda vez que você for perturbado pelo pensamento.

Você não precisa eliminar nenhum falso “eu”. Como pode o “eu” eliminar a si mesmo? Tudo o que você precisa fazer é encontrar a Fonte do “eu”, e permanecer lá. O seu esforço só pode levá-la até este ponto. A partir daí o Transcendental vai tomar conta de si mesmo. Você não pode fazer mais nada então. Nenhum esforço pode chegar até Ele.

Este ego fantasmagórico, que não possui forma, surge agarrando-se a uma forma, e enquanto ele estiver apegado a uma forma e continua, mas quando investigado ele desaparece.

 

Embora Sri Ramana mencionasse que a experiência do Ser é sentida no corpo como se estivesse localizada no “coração espiritual” (no lado direito do peito), deixava claro que concentrar-se nesse centro não produziria a experiência, sendo apenas um efeito colateral desta. Bhagavan também deixava claro que a inquirição “Quem sou eu?” – podendo ainda ser feita como “Da onde eu vim?” – não é um processo de investigação intelectual, nem um mantra a ser repetido, mas apenas uma ferramenta para expor a irrealidade do eu individual.

 

A autoinquirição não é exatamente uma meditação formal, podendo ser feita em todos os momentos do dia. Independentemente da atividade em que estamos envolvidos, parte da nossa atenção pode estar sempre focada no “pano de fundo” de apenas Ser. Mesmo assim, para a maioria das pessoas separar alguns minutos do dia para sentar em silêncio com apenas isso pode ser uma ajuda valiosa.

 

D.: Qual é o momento do dia mais adequado à meditação?

B.: O que é “tempo”, “momento”?

D.: Me responda!

B.: O tempo é apenas um conceito. Existe apenas a Realidade. O que quer que você pense que é, ela aparenta ser. Se você a chama de tempo ela é tempo, se você a chama de existência ela é existência, e assim por diante. Depois de rotulá-la tempo você a divide em dias e noites, meses, anos, horas, minutos, e assim vai. O tempo é irrelevante para o caminho do Conhecimento. No entanto, algumas dessas regras e disciplinas podem ajudar os iniciantes.

 

Conquanto os ensinamentos de Sri Ramana se assemelhem em muito aos do Advaita Vedanta hindu tradicional, sua abordagem prática difere. A prática Advaita ortodoxa é feita através das negações e afirmações. Mediante a prática do neti-neti o buscador rejeita tudo aquilo que é percebido ou experimentado como sendo “não-eu” ou irreal. Pela prática das afirmações o discípulo faz uso das Grandes Revelações (mahavakyas), tais como “Eu sou Aquilo” ou “Eu sou Brahman (o Absoluto)”, mediante repetição mental de tais fórmulas. Bhagavan ensinava que tais métodos podem ser úteis para a aquietação da mente, mas que não são o método final ou mais direto. No caso do neti-neti, porque o ego que nega todas as outras coisas não pode negar a si mesmo; no caso dos mahavakyas, porque quem repete a assertiva e se convence da sua realidade é o próprio ego, que ao final deve ser abandonado. O ensinamento básico da auto-investigação de Ramana Maharshi é no sentido de que nenhuma atividade mental (tal como afirmação e negação) pode levar a pessoa além da mente ou destruí-la. Ao mesmo tempo, o Sábio aceitava a validade de todos os métodos e práticas como meio de purificar e acalmar a mente, preconizando que apenas uma mente pura e clara (sattvica) é sutil o bastante para compreender a Verdade. Ressaltava, contudo, que independentemente do caminho seguindo, no final o ego só poderia ser transcendido pela investigação “quem sou eu?” ou pela entrega.

 

Se a pessoa se entregar completamente, não sobrará ninguém para fazer perguntas ou para ser levado em consideração. Ou os pensamentos são eliminados agarrando-se o pensamento raiz, o “eu”, ou a pessoa se entrega incondicionalmente ao Poder Maior. Esses dois são os únicos caminhos rumo à Realização. [2]

 

Encerro esta exposição compartilhando algumas pérolas do Ramana Maharshi.

 

É verdade que o Ser do Guru é idêntico ao do discípulo. No entanto, apenas muito raramente uma pessoa pode realizar seu verdadeiro Ser sem a graça do Guru.

O silêncio é o ensinamento mais poderoso. Por mais vastas e enfáticas que as escrituras possam ser, elas não alcançam o seu propósito. O Guru é silencioso e com isso a paz prevalece em todos. O seu silêncio é mais vasto e mais eloqüente que todas as escrituras juntas.

Nenhuma teoria é necessária a um homem que sinceramente deseja chegar a Deus ou realizar seu verdadeiro Ser.

Apenas o Ser existe e é real. O mundo, o indivíduo e Deus são criações imaginárias dentro do Ser, tal como o aparecimento da prata na madrepérola. Eles aparecem e desaparecem simultaneamente. Na verdade, apenas o Eu Real é o mundo, o “eu”, e Deus. Tudo o que existe é apenas uma manifestação do Ser Supremo.

Não há mistério maior que este: que sendo a Realidade nós buscamos alcançar a Realidade. Nós pensamos que existe algo ocultando a Verdade e que isso deve ser destruído a fim de que possamos atingir a Verdade. É ridículo. Chegará o dia em que você vai rir de todos os seus esforços pretéritos. Aquilo que será no dia em que você rir também é aqui e agora.

Não há criação, destruição, prisão, desejo de libertar-se, esforço pela libertação nem ninguém iluminado. Esta é a verdade suprema.

 

 

Ramana Maharshi

Ramana Maharshi


[Artigo publicado na Revista Bodigaya nº 21, ano 2009. Veja também a versão integral desse artigo, que contém, além da parte aqui exposta, um esboço biográfico do Maharshi]

 


[1] Em nossa tradução do livro “Os Ensinamentos de Sri Ramana Maharshi em Suas Próprias Palavras” optamos pelo uso do termo “Eu Real”, que também é uma tradução válida. Neste artigo, contudo, achamos por bem traduzir mais como “Ser”.

[2] T., 321

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